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São Frei Gil (1190-1265)

Abade / Santo | Vouzela

Nascimento

S. Frei Gil é um dos santos mais populares e singulares de Portugal e da Ordem de S. Domingos. Popular porque o povo o ama, venera e invoca como verdadeiro homem de Deus, santo religioso, taumaturgo, sábio e zeloso apóstolo do seu tempo, cuja existência e actuação são, de facto, históricas. Singular porque o mesmo povo, em muitos aspectos, envolveu a sua vida em legendas ou lendas de estilo medieval e bastante raras, estranhas e até inverosímeis, em que embarcaram autores conceituados de história nem sempre criticas, legendas ou lendas que confundem religião com superstição.

Nasceu na Quinta (casa) da Cavalaria (actual edifício da Santa Casa da Misericórdia local), em Vouzela, entre 1184 e 1190, sendo este último ano o dado como mais certo pelos historiadores, e morreu em Santarém a 14 de Maio de 1265. Nesta quinta afirma uma tradição ter também nascido o célebre alferes-mor do Reino Dom Duarte de Almeida, o Decepado.

Também é chamado de S. Frei Gil de Santarém, terra em que viveu e faleceu santamente no convento dominicano, do qual hoje apenas restam algumas ruínas; há ainda quem o chame S. Frei Gil de Portugal e, com razão, pois é uma figura nacional com verdadeira projecção internacional, muito em especial na Ordem dos Pregadores ou Dominicanos.
Em Vouzela, onde é muito venerado em linda capela, há pouco restaurada, mercê dos cuidados do seu Pároco actual, R. P. António de Barros Barbosa, conserva-se ainda, repetimos, a casa onde, com toda a probabilidade, nasceu em 1190.
Na mesma casa nasceu – assim se diz – o célebre decepado, D. Duarte de Almeida, que, na batalha de Tara, tendo-lhe sido cortadas ambas as mãos, segurou heroicamente, com os dentes, a bandeira pátria e mereceu a admiração dos inimigos. Foi seu pai D. Rodrigo (alguns dizem Rui) Pais de Valadares, do Conselho de El-Rei D. Sancho I e seu Mordomo-mor e também Alcaide-Mor da cidade e Castelo de Coimbra. A esta conclusão leva o epitáfio latino duma sepultura da Igreja de Santa Cruz de Coimbra, epitáfio recolhido por Fr. André de Resende, O. P., e que reza assim em português: «Aqui jaz Dom Rodrigo, pai de Frei Gil de Santarém e Alcaide-Mor do Castelo e cidade de Coimbra».
Sua mãe foi Dona Maria Gil, segunda esposa de Dom Rodrigo, senhora de origem ilustre e dotada de notável prudência e exímias virtudes.

Alguns livros:

Juventude
Muito moço ainda, mostrou ser dotado de notável inteligência e aptidão para as letras. Em Coimbra, então capital do Reino e residência de D. Sancho I, agora dedicado à administração do nascente país (Portugal), que até então vivera mais para as lides dos combates, floresciam já as letras e as artes. O moço Gil iniciou-se, muito cedo, nas artes do saber, provavelmente frequentando a escola do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Afeiçoou-se logo à filosofia e à medicina e ganhou, desde o princípio dos estudos, fama de estudante aproveitado, embora com algumas estroinices próprias da juventude.
Num desejo sincero de valorizar-se nestas e noutras disciplinas que eram matéria de estudo para aqueles que desejavam adquirir cultura, deixou Coimbra e foi para Paris, onde se congregava o escol do saber daquela época. Ao deixar a pátria tinha já alguns benefícios e prebendas eclesiásticos e, quiçá, a dignidade de presbítero.

Entrada na Ordem dos Pregadores
Segundo alguns historiadores menos críticos e não apoiados em documentos fidedignos, a juventude de S. Fr. Gil não foi digna, nem diante de Deus, nem diante dos homens, especialmente naqueles anos em que empreendeu a viagem para Paris e nos anos em que ali estudou. Há quem afirme que entregara a sua alma ao demónio, assinando um documento com o próprio sangue. Acrescentam que a sua conversão tivera início na mesma cidade de Paris e se consumara em Palência, onde entrara na Ordem dos Pregadores.
Nada disto está comprovado e a literatura em questão deve ter muito de apócrifo, tendo de ser muito joeirado o seu conteúdo neste ponto. Sabe-se, porém, que nessa época pregava à juventude estudantil de Paris Fr. Jordão de Saxónia, que veio a ser o segundo Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, fundada havia muito poucos anos. E pregava com tal êxito que muitos jovens estudantes e até professores abandonaram o mundo e vieram a abraçar a vida religiosa na mesma Ordem. Entre eles sobressai o Venerável Humberto de Romans, que veio a ser Mestre Geral da Ordem e quinto sucessor de S. Domingos. Mestre Humberto escreveu que S. Fr. Gil fora seu companheiro de noviciado. Pode concluir-se, portanto que S. Fr. Gil entrou na Ordem Dominicana, atraído pelo Beato Jordão de Saxónia conjuntamente com o Venerável Humberto de Romans pelos anos de 1224-1225, regressando a Portugal pelos anos de 1229.
Além da pregação do Beato Jordão de Saxónia podem ter levado S. Fr. Gil a entrar na Ordem a santidade dos filhos de S. Domingos, a eficácia da Palavra de Deus proclamada pelos pregadores, a consideração das vaidades deste mundo, das penas presentes e futuras, a devoção e amor a Nossa Senhora, etc.
Da vida santa que então levava e levou depois, fala-nos a célebre compilação de narrações escritas por religiosos do seu tempo, inclusive por S. Fr. Gil, e compiladas por Gerardo de Frachet, a pedido de Humberto de Romans. A esse conjunto de narrações deu-se o nome de «Vidas dos Irmãos» «Vitae Fratrum». Elas são o eco da vida fervorosa daquela primeira geração de seguidores de S. Domingos de Gusmão.
Vale a pena transcrever as passagens mais salientes a respeito de S. Fr. Gil.
E comecemos pelas tentações e provas que teve de vencer quando era noviço. Delas nos dá conta nas Vitae Fratrum (Capítulo 17 da IV Parte n.º 1 e 2) ao falar das Tentações dos Noviços das quais extraímos dois excertos que rezam assim:

Humildade de S. Fr. Gil
De sua santidade e muito em especial da sua humildade nos falam também outras narrativas das Vidas dos Irmãos, como vamos ver (cf. P. IV Cap. IIl, 1).
«De certo frade espanhol (S. Fr. Gil) varão insigne pela santidade e ilustre por sua autoridade, que no mundo, havia desfrutado de elevada condição social, o venerável Padre Mestre Humberto (de Romans), seu companheiro e muito seu amigo durante todo o tempo em que com ele conviveu no convento (de S. Jacques) de Paris e com ele havia estado doente na mesma enfermaria, referiu que eram tão excelsas as suas virtudes, que, enquanto os outros frades estavam nas aulas, ele (S. Fr. Gil) ia por todos os dormitórios (lugares onde tinham as celas ou quartos). Limpava os que estavam sujos, retirava da enfermaria todo o lixo, embora, como médico, soubesse que lhe poderia fazer mal. E dava graças ao Senhor.
Quando alguém lhe pedia qualquer serviço, imediatamente deixava as suas ocupações, mesmo a oração e os exercícios de piedade, e punha-se à disposição com prontidão e ar alegre. Estas e outras coisas semelhantes ensinava-as com as palavras e as obras, tendo sempre presente a caridade fraterna.
A ninguém ofendia, acatava prontamente o parecer dos mais velhos, era assíduo na oração, na meditação, na leitura e no ensino. Embora fosse grande letrado, escutava ou narrava com viva satisfação as Vidas dos Padres e dos Santos, tendo em menos estima as outras leituras.
Louvava gostosamente as actividades apostólicas e a pregação dos outros, esquecendo-se de si próprio.
A todos edificava com a sua vida santa, animava-os a serem ardorosos no amor à Ordem, à santa pobreza e à perfeita obediência.
Quando a ele acudiam, perturbados pelas tentações, os noviços saíam da sua presença sempre confortados.
Quando estava doente, animava e confortava os outros enfermos, aconselhando-os a não se preocuparem excessivamente com os remédios, mas que tomassem, de ânimo alegre, os que lhes ministrassem, confiando no Senhor, porque lhes fariam grande bem, uma vez que, no fim de contas, a graça pode mais que a natureza e Cristo mais que todo e qualquer médico (Galeno).
Se, em sua presença, acontecia falar-se de novidades mundanas, guardava silêncio, desinteressando-se do assunto. E delicadamente metia palavras referentes a Deus de modo que a conversa passava para outros assuntos mais sérios e espirituais.
Diante dele, era difícil ter conversas ociosas. Desta maneira, era impossível, durante o ano, ouvir-lhe palavras inúteis.
Não saía da enfermaria por causa do recreio, ou por outros motivos que não fossem de força maior e de verdadeira utilidade.
Habitualmente vivia tão absorvido na meditação ou contemplação que, algumas vezes, vindo outros irmãos visitar os doentes, não dava pela sua presença, ainda que se sentassem junto dele. Só depois, parecendo voltar de outro mundo, é que se lamentava, ao dar por eles. Então recebia-os com toda a cordialidade, como se tivessem acabado de chegar.
Do seu convento escrevia ao Mestre Humberto: «As almas dos Santos, já neste mundo são iluminadas por uma luz interior, como o são os olhos do corpo pela luz exterior. Disto tenho a certeza por tê-lo experimentado».
Aquele Irmão, que foi seu companheiro na viagem para Espanha, contou ao mesmo Mestre (Humberto) que, por vezes, o viu sentar-se arrebatado subitamente em êxtase, sem dar-se conta das coisas exteriores. Depois, voltando a si, lamentava que desaparecesse aquela luz íntima que iluminava a sua alma».

Em Portugal
Pelo ano 1229, S. Fr. Gil terá deixado Paris e regressado a Portugal, indo viver no convento de Santarém, tornado porFr. Soeiro Gomes, um dos companheiros de S. Domingos na Fundação da Ordem, foco da vida dominicana para toda a Península. Não esqueçamos que Fr. Soeiro Gomes foi o primeiro Provincial da Ordem de Pregadores a governar os religiosos e conventos do que hoje é Portugal e Espanha.
S. Domingos inculcara à sua Ordem e aos seus Frades a vivência da vida que levaram os Apóstolos e os primeiros cristãos que: «Perseveravam unidos na doutrina, nas assembleias, na fracção do pão e na oração. Tinham tudo em comum. Vendiam os seus bens e dividiam-nos por todos segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração, cativavam a simpatia de toda a gente. E o Senhor cada dia lhes juntava outros» (Actos, 2, 42-47).
Os Frades Pregadores, porque mendicantes, viviam em castidade perfeita, obediência inteira e em estrita pobreza voluntária: Mendigavam o pão de cada dia para sustento próprio e para os pobres que deles se abeiravam. Praticavam a abstinência perfeita, e o jejum rigoroso, tomando apenas uma refeição por dia desde a festa de Santa Cruz, 14 de Setembro, até à Páscoa, exceptuando domingos e dias Santos, assim como nas Têmporas, Rogações, Vigílias de 13 festas e em todas as sextas-feiras do ano.
Guardavam o silêncio com todo o fervor («Vidas dos Irmãos», IV, 1), pois sabiam que «no silêncio habita Deus» – como diz a S. Escritura. Além disso, era e é frase corrente atribuída a S. Domingos: «O silêncio é o Pai dos Pregadores».
Amavam a oração privada e comum, em especial a litúrgica ou coral. Nela «tudo era grave, pio e fervoroso».
Cada qual aproveitava os tempos livres depois da Oração litúrgica, percorrendo os altares, implorando a intercessão da Virgem e dos Santos e meditando nos seus exemplos para os imitar. Visitavam, dum modo especial, o altar da Virgem, Advogada e Protectora da Ordem, e o altar do Santíssimo Sacramento.
O seu «estudo era grave e exigente, a disciplina escolástica severa e rígida e as provas difíceis», ― dizem os cronistas.
Gerardo de Frachet nas Vidas dos Irmãos (P. IV, cap. 1) pôde com toda a verdade escrever que os Frades «suspiravam por ser prestáveis uns aos outros; cada um tinha-se por ditoso em servir na enfermaria, na hospedaria, no refeitório e no lava-pés. Corriam a servir os outros com o mesmo fervor como se servissem o mesmo Deus ou os seus Anjos. Quantas vezes não se despojaram da capa, do hábito, do calçado, para dá-los a irmãos que nunca tinham visto».
No convento de Santarém, onde vivia S. Fr. Gil (e nos outros conventos era semelhante o viver) «era tal o silêncio dos religiosos que, estando a casa cheia de religiosos, julgavam-na erma os que entravam de fora; recolhimento constante excepto nas horas forçadas em que se davam ao próximo confessando, pregando, aconselhando ou fazendo doutrina. Esta até pelas ruas e praças, como então costumavam. Fora destas horas não se via frade senão no coro ou no Altar». (cf. Fr. Luís de Sousa, História de S. Domingos). O mesmo, Fr. Luís de Sousa (op. cit. I p. 285) acrescenta: «O convento de S. Domingos de Santarém era conhecido e nomeado em toda a Ordem como viveiro de Santos, principalmente na (chamada) Província de Espanha de que era cabeça.
Muitos padres dos mais abalizados da Ordem, depois de a terem servido nos mais altos cargos, quiseram rematar nele o curso da sua peregrinação, fiando que seria consolação dos últimos dias e remédio para a alma viver entre santos e ficar entre santos sepultado».
Confirma estas afirmações o historiador da Ordem, Hernando del Castillo, O. P., dizendo: «No convento de Santarém não se achava quem não fosse santo e singularmente: era um retrato do Céu cá na Terra».
Perante o que fica exposto, e sendo a vida santa a alma de todo o apostolado., é fácil concluir que S. Fr. Gil, unindo a santidade à ciência teológica que adquirira na Universidade de Paris, se tornasse um verdadeiro frade pregador, difundindo a Boa Nova da Salvação, quer ensinando na Cátedra quer no Púlpito ou pregação propriamente dita.
Quando era Provincial das Espanhas, pela segunda vez, o Papa Alexandre IV escrevera-lhe nestes termos: «Entre os outros defensores da fé cristã, os Irmãos da tua Ordem, em virtude da religião que professam, são devorados pelo zelo das almas, etc.» (Fr. L. Sousa, IV, p. 297).
Abundantes foram os frutos, já que por toda a parte, os Frades Pregadores renovavam os êxitos apostólicos porque pregavam em humildade, pobreza e desprendimento total. A sua actividade apostólica era novidade.

Escritos
Segundo os historiadores (cf. «Frei Gil de Portugal – Médico, Teólogo, Taumaturgo» – páginas 167 e 168 – por João de Oliveira, O. P. – 1973) S. Fr. Gil também nos legou obras literárias, algumas das quais desapareceram, sendo admitidas como autênticas as seguintes:
1.° – Vidas de Fr. Fernando Pires e de Fernando de Jesus.
2.° – «Livro de Naturas».
3.° – Grande parte do Livro «Vidas dos Irmãos».
Este último contém depoimentos que constituem a parte de S. Fr. Gil nesse livro: uns, com certeza, obra sua; outros com toda a probabilidade ou redigidos por ordem dele. S

Santa Morte
Como mortal que era e muitos haviam sido os seus trabalhos e canseiras na vida religiosa que abraçara, no apostolado que exercera e no desempenho dos cargos que a Ordem lhe confiara, deixou o cargo de Provincial. Recolheu-se ao convento de Santarém aguardando santamente a partida deste mundo e a entrada na Jerusalém do Céu.
No dia 14 de Maio de 1265, festa da Ascensão, rodeado dos seus irmãos a quem consolou com palavras de verdadeiro carinho paternal e fraterno, levantando as mãos ao Céu, exclamou: «Nas vossas, mãos, Senhor, entrego o meu espírito» e expirou.
Os seus restos mortais foram colocados em humilde sepultura monástica, até que seis anos mais tarde, D. Joana Dias, Senhora de Atouguia, sua parenta, custeou as despesas dum melhor túmulo numa das capelas do convento de Santarém.
A sua sepultura tornou-se lugar de peregrinação; por sua intercessão e pela virtude das suas relíquias operaram-se graças singulares e milagres que bem cedo levaram o povo a venerá-lo como Santo.
Do túmulo de S. Fr. Gil apenas resta a tampa com a estátua jacente no Museu do Carmo, em Lisboa. Recolheu-a das ruínas do que foi convento dominicano de Santarém o arqueólogo Possidónio Narciso da Silva.
D. Fernando Teles da Silva, Marquês de Penalva, descendente colateral do Santo, conseguiu entrar na posse do cofre-relicário com as relíquias do seu corpo. Encontram-se agora na Quinta das Lapas, perto de Torres Vedras. O maxilar inferior, relíquia insigne, devidamente autenticada, é venerado na Capela de S. Fr. Gil em Vouzela. Uma tíbia conserva-se na Igreja do Corpo Santo em Lisboa. (cf. Frei Gil de Portugal, Médico, Teólogo, Taumaturgo – Prefácio, págs. 11 e 12 – por João de Oliveira, O. P. – 1973).
Bento XIV em 9 de Maio de 1748 confirmou o aliás nunca interrompido culto de S. Fr. Gil de Santarém ou de Vouzela, às Dioceses de Viseu e Lisboa, à qual, até há pouco, pertencia a actual diocese de Santarém, e à Ordem de S. Domingos. A sua festa era celebrada a 14 de Maio. Hoje, depois da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, celebra-se a 15 do mesmo mês.